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Um Paraíso longe de Deus

No interior da comuna do Kikolo, no município do Cacuaco, vivem aproximadamente 15 mil pessoas num bairro cujo nome é Paraíso, onde se pressupunha existir tudo de bom, paz e harmonia. Em suma, um lugar onde haveria felicidade em abundância. Com ruas cujos nomes são Maria do Céu, Santas e Maria Pia, o Paraíso, em Cacuaco, contrasta com o lugar maravilhoso apresentado pelas Escrituras Sagradas.

Aos 55 anos de idade, Abel Ukwessunga é um dos mais antigos moradores do “maravilhoso” bairro. Chegou ao local há nove anos com Juliano, Laurinda, Tiago e Avelino, todos provenientes da província do Huambo.

Fugidos da guerra, Abel e companheiros começaram a ocupar os terrenos na área, cientes de que tinham chegado, finalmente, à Terra Prometida. Inicialmente ergueram cubatas de chapas de zinco, na altura tidas como ilegais pelas autoridades municipais, perto de uma vala, numa zona completamente inóspita.

“A construção definitiva estava proibida, ao ponto de o mesmo bairro ter sido conhecido com um nome pejorativo como Pára Com Isso”, recordou o morador.

De “Pára Com Isso” para Paraíso foi um pequeno passo, mas mesmo assim poucos se lembram das razões que levaram a esta denominação.

Alguns alegam que anteriormente havia muitas frutas no local, que servia de repasto para muitos transeuntes. Outros ligam o nome à posição geográfica, porque a maioria das habitações foram construídas numa zona alta e visível mesmo ao longe.

Mas, o decano dos moradores do bairro é peremptório: “o nome provém de um preceito lançado pela administração do Cacuaco, que proibia a exploração agrícola e a construção na região através dos famosos letreiros Pára com isso”.

Verdade ou mentira, o certo é que este Paraíso, em Luanda, está longe daquele onde viveram Adão e Eva, de acordo com os seus moradores.

Aqui há razões para muitas inquietações, porque dizem-se esquecidos pelo Governo Provincial de Luanda (GPL).

“Sentimos que não estamos enquadrados no Programa de Requalificação e Urbanização da Cidade de Luanda”, lamentou o coordenador para disciplina e auditoria da comissão de moradores, Francisco Leitão, porque “regularmente encaminhamos à administração comunal pedidos relacionados com a falta de água e luz eléctrica”.

“Os populares dizem que a Comissão de Moradores não está a trabalhar, por isso o bairro não tem água e luz.

Mas não percebem que esse assunto é discutido a nível mais elevado, do qual nós dependemos”, acrescentou Francisco.

A falta de água e luz é parte dos problemas que se vive nesta edilidade “divina”. A lista de necessidade é vasta e integra outros aspectos como a saúde e educação, uma vez que os postos de saúde e escolas existentes serem insuficientes para albergar o número de crianças em idade escolar.

O nível de escolaridade está limitado ao ensino básico, razão pela qual a jovem Filipa, 18 anos, não dá continuidade aos seus estudos, por inexistência de uma instituição do ensino médio.

A esperança da menina era uma escola construída recentemente por uma empresa japonesa, mas só lecciona até à 9ª classe.

Financiado pelo Governo Japonês, a escola 8074 possui 17 salas de aulas, mas foi concebida inicialmente para leccionar apenas o ensino primário.

O ensino secundário do primeiro ciclo surgiu devido ao elevado número de crianças que se encontram fora do sistema de ensino, incluindo petizes que vivem nos bairros Boa Esperança, Kikolo, Cerâmica e Petrangol.

O director pedagógico, Falsistiano Baptista, disse a O PAÍS que por causa da distância “tem sido difícil contratar professores para a escola”.

Por isso, os alunos foram reunidos em poucas turmas, algumas das quais com cerca de 80 integrantes.

Por seu lado, Teresa Bila vive há dois anos com a família na zona.

Apesar das dificuldades que atravessam, anima-a o facto de ter concretizado o sonho da casa própria.

Apontando para a sua residência, a senhora gabou-se que o imóvel lhe pertence, apesar de ainda não ter condições materiais para erguer uma casa condigna.

“Ninguém virá dizer que terei que pagar renda ou sair deste lugar”, realçou Teresa Bila, que diz mais:“embora não temos posto médico, em caso de emergência nos dirigimos para o Posto de Saúde que se encontra há alguns quilómetros daqui”.

Salve-se quem puder

Privados do fornecimento de água e um sistema de saneamento básico, os moradores recorrem necessariamente aos vizinhos mais afortunados que construíram reservatórios nos seus quintais.

Por cada recipiente de 20 ou 25 litros desembolsam entre 50 e 100 kwanzas, por um produto transportado em camiões-cisternas que adquirem nos centros de captação de água do Kifangondo e do Kikuxi.

Para facilitar a aquisição da água no bairro, em 2008 a administração municipal construiu três depósitos com capacidade de mais de dois mil litros. Entretanto, há seis meses que os referidos tanques estão secos, porque os camiões-cisternas da repartição municipal, que deveriam abastecer os bairros, encontram-se avariados.

Quando se inaugurou o sistema de chafarizes, os moradores acreditavam que não pagariam nada pelo produto, mas foram informados que tinham de colaborar com 25 Kwanzas por cada balde.

Nos primeiros anos de existência do bairro, a distribuição era feita de forma gratuita por cisterna do GPL, mas há três anos que o processo terminou.

No tempo chuvoso o abastecimento de água é crítico, porque oestado das vias não permite que os camiões-cisternas percorram o interior do bairro. Mas, Abel Ukwessunga queixa-se do período seco, porque “o Paraíso é um forte produtor de poeira”, por causa dos carros que transportam pedras, areias e mesmo a água para beberem.

“Quando cá chegamos, o GPL implementou o sistema de distribuição de água potável através de cisternas, apesar de ter sido insuficiente para minimizar as dificuldades”, garantiu o coordenador do bairro.

A luz eléctrica está reservada às residências daqueles que têm algum poder financeiro e conseguiram fechar um contrato com os proprietários dos Postos de Transformação (PT) de energia existentes.

Vivendo no bairro desde 2001, Laurinda André, por exemplo, pagou uma jóia de 500 dólares americanos para a abertura do contrato e paga mensalmente dois mil Kwanzas.

“Mas ainda assim a energia não é regular”, contou a senhora, mãe de cinco filhos, reclamando que “não é possível conservar os frescos e as coisas que estão na arca estragam sempre”.

Face às dificuldades, o mais antigo morador não sente a vontade da administração municipal em melhorar as condições básicas, uma vez que a sede do Cacuaco não dista muito do Paraíso.

“As promessas têm sido constantes, mas a efectivação anda sempre adiada”, desabafou o ancião, ironizando que “nem sequer uma padaria existe no bairro”.

Auxílio: FAS garante saúde

O bairro Paraíso tem apenas um Posto Médico, erguido pelo Fundo de Apoio Social (FAS), aonde também se dirigem os populares dos bairros vizinhos, nomeadamente Ngangula, Mulenvo da baixa e Pedreira. Insuficiente para atender a demanda, foram construídos outros dois postos particulares no bairro: Maria Pia e o Tchiriri.

Mas existem patologias que requerem cuidados específicos e os pacientes têm de recorrer a outras unidades sanitárias. As mulheres grávidas têm de se deslocar a sede do município do Cacuaco para efectuarem as consultas pré-natais.

A jovem Filomena, 28 anos de idade, está com seis meses de gravidez e este ano já foi o mesmo número de vezes ao Hospital do Cacuaco. Além da distância, o grande sacrifício que grávidas e doentes enfrentam é andar de motorizadas, as também conhecidas “kupapatas”.

O sistema de transporte é precário e os poucos taxistas que existem cobram por cada corrida 100 Kwanzas.“Só vamos alugar um ToyotaCorola no dia das dores de parto. O objectivo agora é poupar dinheiro”, contou Filomena, que fará o segundo parto nas mesmas circunstâncias que o primeiro.


Cartão postal: Vala da morte

No Paraíso existe uma vala, que é uma espécie de carão de visita para todos que se deslocam ao bairro. Ficou conhecida como Vala da Morte em 2007, quando em plena época chuvosa arrastou de tudo um pouco, como lixo, embondeiros, casas e mais de 20 pessoas.

Foi na mesma altura em que as chuvas provocaram imensos estragos na sede do município do Cacuaco, tendo inclusive destruído a ponte que ligava a sede e outras localidades.

“No tempo chuvoso a vala não poupa nada que entra na sua direcção”, explicou Pedro Eduardo, um pedreiro com 40 anos, morador no bairro há cinco anos.

Segundo ele, os estragos de 2007 foram consequência do facto de as pessoas terem construído em plena vala. Choveu muito na noite do dia 21 de Janeiro daquele ano e a corrente de água arrastou as casas, árvores e as pessoas, que acabaram por morrer afogadas.

Mesmo com esses relatos, alguns populares estão a construir novas residências na zona da perigosa vala.

E alguns moradores defendem uma retirada forçada destes, para evitar situações como as que ocorreram há dois anos.

Quando há chuvas, a vala torna-se intransponível, ao ponto de os populares não se puderem comunicar, algo que não ficou resolvido com as duas pontes construídas na localidade depois da calamidade de 2007.

A professora Maria Dingati, que vive nas redondezas, considera a vala como uma maldita ironia do destino.

“Por ironia do destino, e, infelizmente, para não contrariar ao que se apregoa por aí, sobre a divisão entre o céu e o inferno, o bairro é atravessado por esta maldita vala, que já consumiu muitas vidas humanas”, profetizou a pedagoga.

Ela considera os bairros Maria do Céu, Santas e Maria Pia como uma consolação dentro do Paraíso. “São as áreas mais calmas que, por sinal, não sofrem muitas consequências das calamidades naturais”, rematou.


Alberto Bambi e Waldney Oliveira
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